quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Nigéria à beira do caos

A violência do movimento fundamentalista islâmico do norte e os ataques dos separatistas sulistas católicos são a receita política para manter o país parado em uma situação de permanente convulsão.

No "Brasil de Fato"
Achille Lollo*

No dia 5 de fevereiro chegava à redação milanesa do jornal Corriere della Sera um comunicado, assinado pelo comandante do Mend (Movimento para a Emancipação do Delta do Niger) Jomo Gbomo, que reivindicava para a organização a destruição, na localidade de Brass, do oleoduto que a empresa petrolífera italiana Agip havia construído no estado de Bayelsa para escoar o petróleo até os portos de embarque onde estão localizadas as refinarias com seus tanques de armazenamento.

No comunicado, Jomo Gbomo lançava ataques duríssimos às multinacionais, em particular à British Petroleum e às sul-africanas MTN e Sacoil, enquanto o governo federal nigeriano era chamado de incapaz por estar fazendo uma péssima administração e por querer sacrificar a renda petrolífera para construir duas centrais nucleares.

Carro destruído em atentado cometido por Boko Haram
- Foto: Sahara Reporters
Porém o principal signifi cado político do atentado é a resposta aos fundamentalistas nortistas da organização Boko Haram, que, em 2 de fevereiro, deram aos cristãos da Nigéria um prazo de três dias para abandonar o país. Em coletiva de imprensa telefônica clandestina, Abdul Qada, porta-voz oficial do movimento, leu um comunicado no qual os cristãos eram apresentados como o principal inimigo dos muçulmanos da Nigéria: “Vocês, cristãos, têm três dias para ir embora da Nigéria, caso contrário, vão sofrer as consequências”.

Uma ameaça que, na realidade, é mera propaganda para criar o clima político apto a provocar a eclosão de uma “guerra santa contra os cristãos da Nigéria”. Uma guerra que, como no passado, tem como causa a disputa pelo controle estratégico da venda do petróleo e do gás que, na suas quase totalidades, são extraídos no sudeste do país, isto é, na região do delta do rio Níger, onde a maioria da população é da etnia Igbo e de religião católica.

Terrorismo

A Nigéria – com seus 155 milhões de habitantes espalhados em 36 estados e uma produção petrolífera diária de 2,4 milhões de barris – ainda sofre as consequências da dramática guerra civil que começou em 1967, com a secessão da república sulista do Biafra, e que, quando acabou, em 1970, registrava a morte 1,3 milhão de pessoas da etnia Igbo e cerca de 200 mil nigerianos da etnia Hausa.

De fato, para desmobilizar o separatismo sulista, os governos militares optaram pela balcanização da Nigéria: para cada um dos 250 grupos étnicos foi criado um governo provincial, enquanto os estados aumentaram para 36. Uma fórmula institucional que garantiu paz e a estabilidade econômica até quando os militares ficaram no poder.

Com o retorno da democracia partidária no cenário político nigeriano, voltou também a conflituosa relação do Big Three, isto é, a luta pela hegemonia no estado federal entre os Hausa-Fulani, islâmicos dos estados do norte; os Yoruba, do sudoeste, também divididos entre muçulmanos e católicos; e os Igbo do sudeste, católicos.

Policiais prendem homens suspeitos de pertencerem ao grupo Boko Haram
- Foto: Sahara Reporters
É bem verdade que sob a presidência do Yoruba Olusegun Obassanjo o conflito étnico perdeu sua histórica intensidade, cuja herança política, depois do 11 de setembro, foi capitalizada pelo fundamentalismo islâmico, sobretudo nos estados de Kano, Borno, Plateau, Niger e Yobe, cujos líderes começaram a manter regulares contatos com os representantes da Al Qaeda de Osama Bin Laden na Arábia Saudita e no Sudão.

Guerra santa

Assim, em 2000, Mohammed Yussuf promoveu o surgimento do movimento Jama’atu Ahlis Sunnati Lidda’awati Wal Jihad (Pessoas que lutam pela divulgação da doutrina do Profeta e da Guerra Santa Jihad) que logo registrou um rápido crescimento no Norte da Nigéria, em particular nas cidades de Kano e de Maidguri, onde o movimento, em língua Hausa, é chamado Boko Haram (É proibida a cultura ocidental).

Em 2008 os líderes do fundamentalismo nigeriano, Mohammed Yussuf e Abubakar Shekau, lançaram a primeira proclamação de guerra santa contra os cristãos que, após as primeiras chacinas, provocou uma dura intervenção por parte do exército federal. Consequentemente, em 2009 a espinha dorsal do Boko Haram teve que fugir ao exterior, espalhando centenas de militantes no Níger, no Chade, no Mali, na Argélia e na Mauritânia, onde se juntaram às milícias do Aqim (Al Qaeda por um Magreb Islâmico). Outros foram acolhidos pelas células dos salafitas da Líbia. Muitos deles foram combater com os “Shebab” da Somália, enquanto outros grupos chegaram a integrar os combatentes islâmicos de Darfur, no Sudão.

Abubakar Shekau, o novo líder do Boko Haram, soube capitalizar muito bem no mundo islâmico o efeito moral da repressão do exército, sobretudo quando foi eleito presidente o cristão sulista Goodluck Jonathan. Dessa forma, um expressivo número de empresários muçulmanos nigerianos e de ONGs islâmicas começaram a financiar os “programas sociais” do Boko Haram, que permitiram pagar o retorno dos exilados, a manutenção de uma estrutura clandestina armada e a importação de armas do Sudão e de explosivos de Darfur.

Ataques

Financiado pelas ONGs islâmicas e com certo apoio nos estados muçulmanos da Nigéria que havia introduzido a Lei Sharia, o movimento voltou ao ataque em agosto de 2011, quando um grupo suicida explodiu a representação das Nações Unidas na capital Abuja, matando 24 pessoas. Em dezembro de 2011, os homens do Boko Haram invadiram a igreja católica de Santa Teresa em Medalla, no subúrbio da cidade, provocando 37 mortes e o ferimento grave de 53 cristãos.

A seguir, houve inúmeros pequenos ataques contra casas, lojas e igrejas cristãs que, no total, causaram a morte de 512 pessoas. Entretanto, foi em 21 de janeiro de 2012 que, na cidade de Kano, o terrorismo do Boko Haram alcançou a notoriedade. Para demonstrar sua força aos homens do governo nigeriano, os fundamentalistas atacaram todas as estações das polícias estadual e federal, as delegações do Ministério do Interior, o comissariado dos serviços secretos do exército e uma centena de residências de funcionários do governo estadual. Cento e sessenta e duas pessoas morreram e 213 ficaram feridas.

Diferentemente do que ocorreu em 2009, a resposta do exército, apesar do enérgico comando do presidente Goodluck Jonathan, não foi muito eficaz. Pois, segundo o analista nigeriano Ahmad Salkida, “muitos mulçumanos moderados começam a simpatizar com os Boko Haram. Outros, cinicamente, preferem que sejam eles a liquidar os cristãos, enquanto no exército – onde há muitos muçulmanos – há quem não quer mais chocar-se com os ‘irmãos’ e, por isso, começam a fechar os olhos”.

Não é uma casualidade que nesse contexto o número dois do movimento fundamentalista, Karibu Sokoto, foi preso em uma residência do governo do estado de Borno e, depois de 48 horas da chacina em Kano, deixaram-no fugir enquanto o transferiam de uma prisão para outra.

Tudo pelo petróleo

É bem verdade que na Nigéria, por trás da pureza étnica dos Hausa-Fulani e dos Igbo, há duas burguesias que utilizam os ensinos do profeta Maomé ou as escrituras da Bíblia para gerar um conflito, tipicamente africano, cujo vencedor poderá se apropriar da receita do petróleo. A produção do óleo passou dos 100 mil barris diários em 1963 para 2,4 milhões em 2011 – o preço do barril, nos últimos três anos, oscilou entre 85 e 120 dólares.

É nesse contexto que há mais de 40 anos as multinacionais se movimentam prometendo apoio aos diferentes senhores da nomenclatura Yoruba, Housa ou Igbo, que utilizam a pobreza das regiões do norte, de maioria muçulmana, para administrar a renda petrolífera que, hoje, garante 73% do orçamento do estado federal e 100% dos custos da defesa e do Ministério do Interior.

A burguesia muçulmana que emigrou ao sul – onde passou a ocupar importantes postos nos setores do comércio exterior e interestadual e, sobretudo, parcelas da administração federal – não quer mudanças e aposta na manutenção desse status quo por meio do qual é possível manter inalterada sua posição de crescimento na escala social da Nigéria.

De fato, a implementação de processos de industrialização nos estados do norte, além de desviar importantes recursos do sul, inevitavelmente determinará o fortalecimento de uma nova burguesia, que exigirá do governo nacional uma mais ampla divisão da renda petrolífera e uma rápida ascensão nas instituições do Estado.

Por isso a violência do movimento fundamentalista Jama’atu Ahlis Sunnati Lidda’awati Wal Jihad e os ataques dos separatistas sulistas do Mend são a receita política para manter a Nigéria parada em uma situação de permanente caos que somente as Forças Armadas têm o poder de controlar ou de desbloquear, visto que em termos estratégicos eles ainda são os tutores da desordem democrática partidária”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa de TV “Quadrante Informativo”.

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